Hoje fiquei em casa. Estava sentado, numa secretária, a ler
uns apontamentos. E quando vinha aqui ao
computador para reler uns casos práticos que eu e os meus colegas fizemos,
olhei para o sofá. Deitado, com uma protecção ao pescoço, e quase sem abrir o
olho direito, o Pepe (o meu cão) estava instalado melhor que ninguém. Mal sabe
ele vai ser operado porque hoje, de manhã, o veterinário encontrou um tumor na
sua boca, que será analisado na próxima semana, para se saber se será benigno
ou maligno. Foi com esse pensamento que decidi fazer uma pausa no estudo. Estava em falta aqui no blogue, onde não escrevo há cerca de uma semana, mas os temas quentes da actualidade não merecem grande discussão porque essa discussão seria, hoje, inconsequente. O país ainda não despertou para alguns assuntos, e essas discussões podem para ficar para mais tarde.
Mas, nesta pausa no estudo, quando olhei para o Pepe, senti que também estava em falta com ele. Sendo, este, um blogue pessoal e que não é dirigido a nenhum assunto específico, achei que o Pepe merecia hoje um lugar de destaque.
O Pepe foi, e é, como um filho para mim. Abdiquei de várias
coisas para o ter por perto, mas não me sinto prejudicado por isso. Foi, e é, o
companheiro e o amigo mais leal que alguma vez já tive.
Nos quase sete anos que vivi com ele, vivi mesmo a sério. E
vivi tudo aquilo que tinha, e que queria viver. Sem saber, por ter o Pepe, e
por gostar de o ver correr, ele empurrou-me para construir um sonho. Esse sonho
desenvolveu-se, adaptou-se aos recursos de que podia dispor e hoje entreguei o último
documento que era necessário para um projecto que assumo como uma causa, um
sonho, um projecto de vida. Se não tivesse tido o Pepe, se não tivesse sentido
a necessidade de o ver correr num grande espaço, se não tivesse gostado tanto
de o ver a brincar nesse espaço, talvez não tivesse trabalhado para esse
projecto. Seria, hoje, uma pessoa mais triste e menos completa.
Mas a propósito desse projecto, o documento que hoje
entreguei é o certificado de habilitações. Nestes anos, licenciei-me em Direito
e, apesar de, na fase final dessa etapa, ter preferido estar mais tempo junto
de colegas na faculdade, o Pepe foi, na maior parte das vezes, o meu
companheiro enquanto estudava. Lembro-me agora de um exame que tive de uma cadeira leccionada pela única professora do curso com a qual não tive uma boa relação. Na véspera desse exame, o
Pepe foi pai. Deu-me uma grande alegria, assim como às donas da cadela e aos
que receberam os filhos, mas não sei, se o Pepe se chegou a aperceber que aqueles
seis boxers bebés eram seus filhos.
Foram tempos bons. E, mesmo nas piores alturas, foi o Pepe
me ajudou a superá-las. Com passeios, com longos passeios, com brincadeiras,
com algumas viagens.
O Pepe, além de me ter feito conhecer quase todos os
vizinhos das redondezas, de me ter feito ir a “A-dos-Loucos” para ver se
conseguia cobrir uma cadela, de me fazer acordar ainda de madrugada em dias de
descanso, foi, e é, uma companhia da qual nunca consegui prescindir. Pela
companhia, pela verdade, pela lealdade e pela transparência. Eu nunca conheci
ninguém assim.
Às vezes somos arrogantes e não conseguimos reconhecer a
importância que as coisas têm para nós. E prendemo-nos com coisas mesquinhas e
sem interesse. E até tem graça porque, para provar o que digo, estão, neste
momento, a discutir pastéis de nata na Assembleia da República. Estão mesmo!
Quando somos confrontados com notícias como estas, de
tumores ou coisas que podem ser graves, apercebemo-nos das falhas que tivemos
ao longo da vida, do que fizemos e não devíamos ter feito e, pior do que isso,
do que ficou por fazer. Muitas vezes, quando nos apercebemos disso, já vamos
tarde.
O meu conforto, nos quase sete anos que o Pepe tem, é que
fiz tudo, mesmo tudo, o que queria ter feito. E quando olhar para trás, para o
hoje e para o ontem, vou sempre lembrar-me que, ao meu lado, estava este boxer
camurça que é “maricas” e corajoso ao mesmo tempo. Aliás, quase todos os posts
que fiz para este blogue foram feitos com o Pepe ao lado. E, se não sei como seria com outras pessoas, tenho a certeza que o Pepe dava a vida por mim.
Foram, e estão a ser, tempos bons. E, sendo este um blogue
pessoal, onde tenho a liberdade para partilhar os meus desabafos, não poderia
deixar de deixar esta história aqui registada, do mesmo modo que não a podia acabar sem pedir a Deus que o ajude.
6 comentários:
Bem me pareceu que cada vez que aqui vinha havia "alguém" a olhar para mim...era o Pepe :)
Mesmo que o blog tivesse um assunto específico era sempre bom falar do Pepe, afinal é um amigo que está sempre presente quando escreve um post.
Gostei de conhecer o Pepe e espero que tudo corra bem :)))
Bjs aos dois e as melhoras Pepe :))
qual é o teu projecto pessoal?
as melhoras ao pepe!
Um abraço!
BMar.
Quem adora animais, como eu, não pode deixar de se sentir comovida. Parabéns pelo 'post' e espero que corra tudo bem com o Pepe.
Beijos aos 2.
Ass: Leoa Ferrenha
OlÁ.
Como está o Pepe? Alguma notícia?
Ass: leoa ferrenha
Obrigado pelas mensagens. O Pepe, entretanto, foi operado a um olho e a tumores que tinham na boca, que estão agora a ser analisados. Está aqui comigo "com um olho à Belenenses".
Quando houver mais novidades, publico-as aqui.
Quanto ao projecto pessoal, escreverei sobre ele até ao fim do primeiro semestre deste ano.
Beijinhos e abraços
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