sexta-feira, 31 de agosto de 2012
A RTP
De manhã, a RTP dá as notícias. A seguir passa um programa de
entretenimento para idosos. Uma espécie de programa do Goucha, sem o
Goucha. Três horas depois, novas notícias, que antecedem uma tarde de
telenovelas e programas de entretenimento. Depois, novas notícias,
nomeadamente locais. E é a partir daí que a RTP joga com todas as
cartas. O Preço Certo enche a casa dos portugueses. E a de Fernando
Mendes também, com a quantidade de pratos, camisolas, galhardetes e
chouriços que lhe oferecem. A seguir, as notícias. Segue-se o Quem Quer
Ser Milionário com esse ou outro nome, sempre com formatos semelhantes e
comprados. Curiosamente, depois aparecem os dois programas que mais
gosto (Portugueses pelo Mundo e 5 para a meia-noite). A partir daí, não
sei bem o que dá. Provavelmente, filmes para adultos.
Pergunto.
Onde é que está o serviço público? O que é que a RTP faz que os privados
não têm feito? Será que os nossos impostos devem financiar uma imitação
dos privados? É que, ao fim-de-semana, não é diferente. Dão filmes
estrangeiros durante tardes inteiras.
Para mim, é completamente
indiferente vender ou concessionar a RTP1 porque nunca percebi a
necessidade de ter um canal público de televisão.Nunca aceitei bem a
ideia de que os meus impostos deveriam servir para financiar algo que,
"sem custo para o telespectador", já é feito, e bem feito, pelos
privados.
Serviço público? Onde?
Querem-no? Criem leis, façam imposições aos privados, fiscalizem e regulem, com verdade e intensidade, a sua actividade!
Dá
lucro ao Estado? Às vezes, dizem que sim. Mas nunca ninguém fez a conta
que interessa. Porque parte considerável da publicidade na RTP é de
entidades públicas. Ou seja, parte das receitas da RTP somos nós que a
pagamos, pelas mais diversas vias.
Quanto à RTP 2, a questão pode
ser diferente. É importante que se pense, e repense, sobre o que se quer
fazer da 2. Há espectáculos, eventos, entre outras coisas que têm de
chegar a casa dos portugueses e que não sei, se os privados o conseguem
fazer. Cultura, História, festividades locais, desporto (sobretudo, as
modalidades amadoras).
Mas a RTP, a 1, não sei para que existe.
Não sei e também não quero pagar. Até porque prefiro que o pouco que
tenho, o pouco com que posso contribuir, seja utilizado para
salvaguardar direitos fundamentais.
Com todo o respeito por quem
tem dormido mal com as notícias sobre a RTP, e a sua transição para os
privados, esta é uma questão me diz pouco. Ou nada. E, aliás, até me
sinto mais aliviado por sentir que o poder político, o Governo e o(s)
partido(s) que o suporta(m), deixam de ter um acesso tão privilegiado ao
controlo de órgãos da comunicação social.
A questão da RTP não me tira o sono. Mas, numa altura em que o Estado está falido, o facto de ver os principais partidos de poder a discutir o futuro do canal público de televisão deve tirar o sono aos portugueses. Porque, enquanto discutem estas coisas supérfluas, esquecem-se de debater a forma de satisfazer os direitos essenciais dos cidadãos, esquecem-se de debater o meio de nos tirar do buraco, esquecem-se de debater o caminho que nos vai fazer crescer. E, se isso diz muito sobre os partidos e os responsáveis políticos que temos, também explica muita coisa sobre o estado em que deixaram o país.
terça-feira, 28 de agosto de 2012
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Dar o exemplo!
Escrevi aqui, há não muito tempo, um texto triste e de despedida
a Rui Patrício. Com os jornais diários a noticiar a sua saída, a volta longa e
demorada que deu ao estádio, entre outros sinais, levaram-me a crer que a saída
do guardião seria irreversível. Era, aliás, um bom momento do guarda-redes, que
se afirmava como titular da selecção nacional, tendo jogado todos os jogos na
equipa das quinas no Euro que terminou com uma prestação digna da nossa
selecção.
Sabia, quando escrevi o texto, que seria difícil segurar o
guarda-redes, mas também sabia que, tendo em conta a estagnação que se
adivinhava no mercado (apenas interrompida pelos largos milhões de Paris e por
uma ou outra transferência), Patrício poderia continuar. Era difícil, porque se
tratava, e se continua a tratar, de um guarda-redes de grande qualidade, o
melhor nacional, o melhor da Liga e um dos melhores guarda-redes no activo.
Se não saísse, Patrício corria o risco de ficar para sempre.
E foi isso que Patrício anunciou véspera da estreia do Sporting em Alvalade
para um novo campeonato. O Sporting é o topo. Dito e cumprido. Para já, é
certo. Mas Patrício, aquele miúdo que saiu do banco para defender um penalty na
sua estreia, é, hoje e daqui em diante, um novo símbolo deste novo Sporting.
Personifica aquilo que os sportinguistas querem. Um jovem
com qualidade, titular indiscutível no clube e na selecção nacional. Fica. E
fica contente. E ficar a querer ficar. E é a querer ficar que Patrício se vai
continuar a mostrar aos colossos, como homem de palavra, como profissional
exemplar.
Será o primeiro de uma equipa nova, que terá talento e
vontade. Terá, atrás de si, milhões de leões espalhados pelo país e pelo mundo,
na ânsia desenfreada por conquistar um título que vai escapando há demasiado
tempo.
Pode não ser domingo à tarde e não estar sol. Mas depois do
avanço que se deu em Guimarães, e que não se devia ter dado, sentimos o dever
de comparecer e de estar no estádio. A puxar por esta equipa. Esta equipa com
quem Sá Pinto vai ter de apertar.
Sem Schaars e Fito, esperemos que a música seja afinada. E que
tenha surpresa de Viola. Vamos ver. Mas vamos acreditar. E vamos ser exemplares, como Patrício.
Todos ao estádio!
Em frente Sporting!
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
De Janeiro a Janeiro, a fugir o tempo inteiro!
Sim, é verdade. Cada um olha por si, seguindo as suas ambições, que são legítimas, ainda que não deixem de ser gananciosas e pouco solidárias.
Portugal vive tempos difíceis. Somos todos chamados para fazer a nossa parte. Podemos fintar a lei, poupando dinheiro. É legítimo. Podemos colocar imposições, aproveitando a lei. É legítimo. Mas também é legítimo deixar de fazer compras, pagando a quem não quer dar a sua parte para pagar a crise.
Menos multibanco é menos dinheiro no Estado. E abre-se uma porta, deixando-se de se facturar o que é mesmo "facturado".
Eu quero lá saber, se é de Janeiro a Janeiro. Há sítios onde eu não gasto dinheiro. Mas, se alguém continuar a fazer as compras ali, ainda que seja uma garrafa de água, espero que peça a factura. Por Portugal!
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
A pergunta a que Passos não responde
Tenho ouvido, com uma certa atenção, o que tem sido dito pelos membros do governo e dos partidos que o suportam. Há um vazio à esquerda do PSD. O Bloco, na fase descendente da curva que marca a sua existência, vive uma crise que se justifica, com uma contestação interna que, ainda que raramente tenha passado das entrelinhas que marcam os bastidores, levou à queda de Louçã.
Ninguém sabe, ao certo, a solução que irá ser apresentada aos militantes do Bloco. Mas a história ficou escrita no início, que confirma aquilo a que chamamos de ironia do destino. O que começou da desunião e da desordem caminha para um fim de desunião e desordem. É isso que se promete com a solução (?) da liderança bicéfala.
O PS, que assinou o memorando de entendimento e que levou o país até ele, não consegue descolar-se da imagem. Não há quem esqueça que foi o PS que nos deixou num pântano que foi sendo construído ao longo de quase década e meia de governos que saíram caro ao bolso dos portugueses, de hoje e de amanhã.
Vivemos, assim, perante uma oposição inexistente, facto que deixa todo o espaço de visibilidade disponível para o governo e para os partidos da coligação que o suporta.
Com atenção, tenho acompanhado palavras e actos, desde as populistas idas à praia da Manta Rota aos metros que vão separando os protestos e os discursos.
Temos objectivos para cumprir. Temos de mostrar resultados. Temos de nos concentrar no curto prazo e nos sinais que vamos dando. Há que conquistar a confiança dos mercados. Não sei quais eram as alternativas às medidas deste executivo. Não sei sequer se as havia, na prática. E, se este não é o tempo para os piegas, o que é certo é que existem limites.
Os objectos são ambiciosos e a margem é curta, e não tenho a certeza de que Passos Coelho e os membros do governo sabem as dificuldades por que passa uma maioria absoluta, trabalhadora e relativamente silenciosa de portugueses que vivem o dia-a-dia como uma luta para que, no dia seguinte, não estejam obrigados a viver na rua, sem ter que comer.
Não há muita margem. Nem sei, se há volta a dar. Mas o que eu queria perguntar a Passos Coelho é aquilo que me aflige e que temo que o Primeiro-Ministro não saiba responder.
Como é que vamos sair daqui? Eu, pessoalmente, não estou a ver como. Não estou a ver, com estas medidas e com tantas imposições (que são autênticos atentados à nossa soberania e que foram forçados por décadas de desgovernos socialistas), como vamos crescer.
Estrangulados por impostos, assombrados pelo fantasma do desemprego e com o custo de vida a agravar-se, os portugueses não podem pôr a economia a funcionar. Podemos iniciar novos negócios, potenciar os que já temos. Podemos ser mais produtivos. Podemos, assim, criar oportunidades, subir as exportações e reduzir as importações. Mas será que isso é suficiente? Ou será que, depois de pararmos a nossa economia, estrangulando-a e tirando-lhe o dinheiro, teremos de voltar a pedir emprestado para, pelo menos, sobreviver ao massacre e a esta cada vez mais violenta forma de nos tirar o dinheiro para o colocar à disposição dos credores do Estado?
Portugal tem dado sinais que têm ajudado a limpar a nossa imagem externamente. O Governo, nesse sentido, oferece muito mais credibilidade do que o anterior. Mas nós estamos no buraco. No buraco de Sócrates, de Guterres, de Seguro e de todos esses camaradas. Continuamos sem ver a luz, sem sinais de esperança, sem saber o porquê de todo este esforço.
E Passos Coelho tem falado bem. Tem sido coerente e claro, realista e ambicioso. Só lhe falta dizer como é que o país vai crescer...
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Apoio(s)?
Chega de choradeira e de choradinhos.
Cada um escolhe o que quer da sua vida. E, se o que se quer não chega para viver, muda-se de actividade.
Os atletas do Uzbequistão, Trinidad e Tobago, Porto Rico, Moldávia, Taipé Chinesa, Guatemala, Chipre, Mongólia, Arménia, Azerbeijão, Granada, República Dominicana, Quénia, Etiópia, Jamaica, Irão, Cuba ou Cazaquistão não choram, não pedem apoios.
Treinam, esforçam-se, têm brio. Não pedem apoios, principalmente quando sabem que não lhes podem dar esses apoios.
Não vejo como não retirar consequências duras desta prestação portuguesa nos Jogos Olímpicos.
Não dá para fazer disso profissão? E nós? O que temos a ver com isso?
São amadores? E os do rugby são o quê?
Mais do que querer honrar a bandeira, há que respeitar os portugueses. E muitos dos que foram a Londres agora, se não devolvessem as bolsas e outras ajudas públicas que receberam, não deviam ir ao Rio de Janeiro em 2016.
Para quê, se estão tão bem na caminha?
Querem apoios? Apoiem-se na almofada e fiquem a dormir!
domingo, 5 de agosto de 2012
Isto é o Sporting! Parabéns, Pedro!
São quatro palavras, Pedro. Nunca te esqueças delas.
Com elas, que contes muitos. E sê feliz.
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Os nossos olímpicos
Nós, portugueses, não sabemos caracterizar a actividade dos nossos atletas. Não percebemos, ao certo, se são amadores ou profissionais. Porque, na hora da derrota, nos dizem que são amadores. E, quando ganham, sobretudo quando se trata de atletas do Benfica, são homenageados como se fossem deuses gregos.
Vivemos, assim, sem saber, se estamos no 8 ou 80, se estamos ali para ganhar ou pela experiência em si, se estamos ali de passeio ou para vingar as cores da nossa bandeira.
Confesso que a minha distância se justifica pelo facto de não me querer desiludir. Mesmo que seja medalhado, não me esqueço quando ouvi, em directo, um atleta dizer não correspondeu às expectativas porque o sítio onde estava bem era na caminha.
Sendo profissionais, noutras competições, noutras modalidades, como o futebol, ou amadores, como no rugby ou em algumas vertentes do hipismo, não ouvimos os nossos atletas falar assim. Podem não ganhar, podem perder por muitos, mas são honrados e, mais do que pelo passeio e pela história que deixam para contar aos filhos, aos netos e ao país, estão ali para dignificar Portugal.
Muitos dos atletas que foram na comitiva portuguesa praticamente no anonimato já deram muito ao desporto nacional. Já ganharam títulos nacionais, europeus e mundiais. Com determinação e suor.
Hoje, a dupla de atletas do Sporting surpreendeu no remo, subindo do último até ao terceiro lugar. Não é muito. Mas estão na final. E, podendo não ganhar, deram o litro e emocionaram o país.
Não têm as condições de vida e de treino dos outros, dos que remavam ali ao lado, mas deram o litro. Não têm o excessivo protagonismo que teve, por exemplo, Telma Monteiro, mas não lhe ficaram atrás.
Eram e continuarão a ser anónimos, não eram e, porventura, não irão ser reconhecidos pelo país. Mas são, como Mourinho ou Ronaldo, orgulhosos portugueses. E é desses que nos orgulhamos.
Esperemos que sejam, também, uma inspiração para os outros.
Porque aquilo não é um passeio. E quando se veste, salta, corra, rema, luta por Portugal, tem de ser para ganhar.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Música portuguesa, canção proibida
Uma das poucas coisas que, normalmente, faço questão de fazer aos domingos é vir, para Lisboa, a ouvir música portuguesa. Sabe-me bem chegar a Lisboa dessa forma, sobretudo na vista que se tem para a cidade, ao fim do dia, da Ponte Vasco da Gama.
Talvez seja um meio que encontrei para aligeirar o impacto da chegada de uma segunda-feira, mas é mesmo assim.
Este domingo, como em muitos outros, lá vinha eu, à procura de uma rádio que passasse música portuguesa. Mas foi preciso dar duas voltas, passar duas vezes por todas as estações, para ouvir o Sei de Uma Camponesa, do Rui Veloso. Já em Lisboa, lá passou outra música, uma comercial de uma nova banda portuguesa.
Claro está que havia ainda a Rádio Amália, com os seus fados, mas, como a conversa era mais que a música, preferi, desta vez, optar por outra estação.
É inconcebível como isto pode acontecer.
Apesar de gostar muito do Pedro Abrunhosa, ele não teve toda a razão naquilo que disse, este mesmo domingo, na gala final do Ídolos. Sim, abrimos as portas aos brasileiros, e eles não nos abrem a nós. Mas nós, portugueses, continuamos presos ao que é estrangeiro. E a responsabilidade é nossa. É das rádios, dos autores, dos políticos e dos cantores. Não é dos brasileiros.
E, assim, a música portuguesa não vai longe. Simplesmente, porque, se nós não nos ouvimos, não podemos exigir aos outros que nos ouçam.
terça-feira, 31 de julho de 2012
Brincar aos polícias e ladrões!
Passos Coelho, ao dizer que os portugueses se podem sentir seguros, mostra uma de duas coisas. Ou não sabe o que diz, ou mente, sabendo do que fala.
Onde trabalho, fizemos 1700 queixas de crimes de que a empresa foi alvo. 1700 em 7 meses. Na sua maioria, esmagadora, tratam-se de crimes de furto.
Nas últimas semanas, tenho sido confrontado com diversas notícias de furto. Aliás, há quinze dias, furtaram-me duas cabeçadas à portuguesa, no valor total de cerca de 200 euros.
No domingo, havia gente que, sem consentimento dos proprietários, entrou numa herdade de família, de onde não queriam saír, nem mesmo quando foram convidados por um dos proprietários e a sua mulher.
Ontem, entraram dois automóveis numa quinta na Chamusca, a horas "decentes" e com gente em casa.
Quando a GNR foi contactada, o que queriam saber é se os proprietários tinham disparado tiros e se, em caso afirmativo, tinham licença para o fazer.
Mas o que é isto?
Que polícia miserável é esta que temos?
Que Justiça é feita a esta tipo de criminosos?
Que Estado é este que, em vez de andar atrás dos ladrões (e de os punir), se vira contra as vítimas?
E ainda temos de pagar impostos? Para quê? Ou para quem?
Onde é que anda o CDS, tão atento a estas matérias?
Onde é que anda o Ministro?
Passos, esse, e como na imagem, deve andar a apanhar bonés. Mas já chega.
Já chega!
Caso contrário, além do telemóvel e da carteira, mais vale que os portugueses se façam acompanhar de uma pistola. Por uma questão de segurança. Até que o Estado as venhas tirar, criando as novas auto-estradas, que é o caminho livre que deixam para que os ladrões nos venham roubar.
Onde trabalho, fizemos 1700 queixas de crimes de que a empresa foi alvo. 1700 em 7 meses. Na sua maioria, esmagadora, tratam-se de crimes de furto.
Nas últimas semanas, tenho sido confrontado com diversas notícias de furto. Aliás, há quinze dias, furtaram-me duas cabeçadas à portuguesa, no valor total de cerca de 200 euros.
No domingo, havia gente que, sem consentimento dos proprietários, entrou numa herdade de família, de onde não queriam saír, nem mesmo quando foram convidados por um dos proprietários e a sua mulher.
Ontem, entraram dois automóveis numa quinta na Chamusca, a horas "decentes" e com gente em casa.
Quando a GNR foi contactada, o que queriam saber é se os proprietários tinham disparado tiros e se, em caso afirmativo, tinham licença para o fazer.
Mas o que é isto?
Que polícia miserável é esta que temos?
Que Justiça é feita a esta tipo de criminosos?
Que Estado é este que, em vez de andar atrás dos ladrões (e de os punir), se vira contra as vítimas?
E ainda temos de pagar impostos? Para quê? Ou para quem?
Onde é que anda o CDS, tão atento a estas matérias?
Onde é que anda o Ministro?
Passos, esse, e como na imagem, deve andar a apanhar bonés. Mas já chega.
Já chega!
Caso contrário, além do telemóvel e da carteira, mais vale que os portugueses se façam acompanhar de uma pistola. Por uma questão de segurança. Até que o Estado as venhas tirar, criando as novas auto-estradas, que é o caminho livre que deixam para que os ladrões nos venham roubar.
sexta-feira, 27 de julho de 2012
Portugal a arder
É difícil compreender como é
possível que, perante as dificuldades que vivemos, estejamos todos, quase a
entrar no mês de Agosto, a brincar ao Carnaval. De facto, estamos perante uma
espécie de vírus carnavalesco que tem contagiado pessoas que vão desde os
sindicatos aos jornalistas, passando necessariamente por outras classes
profissionais, pelos portugueses comuns.
A postura dos sindicatos, olhados
na sua generalidade, assemelha-se à postura do Bloco de Esquerda na altura em
que foi formado. Em vez de defenderem os interesses dos trabalhadores, pelos
quais se deveriam bater, os sindicatos de hoje vestem máscaras, reunindo meia
dúzia de pessoas com alergia ao trabalho em teatros de rua.
A comunicação social vai atrás.
Porque sempre adorou minorias, preferindo o espectáculo, por mais triste que seja,
aos assuntos sérios. E quem devia colocar assuntos novos na ordem do dia
continua preso a um homem chamado Miguel Relvas. É uma luta em vão. É um
não-assunto. Que não diz respeito ao Governo, mas a uma pessoa e a uma
Universidade.
Aliás, todas as tentativas de
aglomerar um conjunto de pessoas para pedir a demissão de Relvas foram pífias.
Quase tão pífias como as cenas tristes que os sindicatos (esses, sim, sem
nenhum sentido de responsabilidade) têm encenado.
O que me enerva é aquilo que não
consegue enervar os sindicatos, os jornalistas e aqueles radicais de esquerda
que, por vestirem o seu fato, são responsáveis por construir opinião.
O país está a arder. E é
importante perceber a razão.
Ora, na minha opinião, mais do
que outras razões que dizem respeito aos tribunais, existem razões políticas
que são causa de grande parte do Portugal que ardeu nesta época de incêndios.
Há meios que não foram accionados
a tempo. Porque não havia dinheiro. Mas será que a falta de dinheiro justifica
poupanças a este nível? O resultado está à vista de quem tem olhos e consegue
ver.
E, claro está, já nos falam que
há 100 milhões de euros para reflorestar. Os 100 milhões que não houve para
desmatar, que não houve para acionar os meios de combate aos incêndios, que não
houve para prevenir que o drama se repetisse.
Isto, sim, merece reprovação.
Porque isto, sim, é política. E há responsáveis políticos pelos incêndios que
assolaram o país.
Mesmo que não queiram falar
disto, que não queiram chamar os bois pelos nomes, poderemos sempre discutir
este tema a propósito dos debates que têm sido feitos sobre a troika, a Europa
e a senhora Merkel.
De uma vez por todas, temos de
apurar responsabilidades políticas e temos de levar este assunto aos locais
onde deve ser discutido.
Não nos podemos esquecer que
estamos numa União, que tem objectivos ao nível agrícola e ambiental. Temos de
nos consciencializar disso e de reclamar pelos nossos direitos.
Mesmo em tempo de crise,
trata-se, afinal, da integridade do nosso território. E é neste ponto que o
dinheiro não pode faltar.
quinta-feira, 26 de julho de 2012
El (nuestro) Crá!
Depois de pegar na bola e de a colocar no chão, o silêncio
apenas era interrompido pelos flashes das máquinas fotográficas e pelo bater do
coração dos adeptos. Era um remate que se adivinhava num ar quase sufocante. O
mundo parou à espera do que Matias era capaz de fazer.
O momento foi acompanhado num ansioso silêncio em Lisboa, em
Manchester e por todo o mundo. A partir daí, do momento em que corre para a
bola, colocando-a direitinha na baliza de Joe Hart, perante todo um mundo
incrédulo, continuo a não saber explicar o que senti.
Esforçando-me por fazê-lo, ouço apenas o som da bola a bater
na rede. A alegria das lágrimas que queriam cair dos meus olhos não me fizeram
aperceber de que o coração aos saltos, algures entre o peito e a cabeça, quase
me impedia de respirar. Os abraços e os gritos de golo, daquele golo de Matias
Fernandez e do Sporting, são coisas que dificilmente irei esquecer.
Foi um tiro demasiado certeiro, um remate exageradamente
perfeito. Foi um golo que fica para a memória. O próprio Matias, demasiado
concentrado na genialidade com que marcou aquele livre, nem conseguiu ter mais
imaginação para o festejar.
Foi História. Escrita a verde e banco.
Mesmo assim, não há maior injustiça que possa ser feita do
que resumir o tempo que Matias passou no Sporting àquele golo, por mais
vibrante que tenha sido. Porque falamos de um mágico, de um fora de série,
daqueles que tratava a bola com a delicadeza com que se deve tratar uma
princesa.
São jogadores como Matias Fernandez que fazem com que os miúdos
sonhem. Concretiza a ideia romântica de que um futebolista, mais do que um
atleta, é um artista.
Matias, mais do que futebolista, mais do que artista, era e
é genial.
Há quem, não sendo do Sporting, não compreenda o facto de,
neste momento de despedida, não estarmos suficientemente tristes. E, de facto,
não estamos. Porque Matias vai, mas o que fez fica. Porque o que fez é
intemporal, como intemporal também é o nosso Sporting. O nosso, meu. O nosso,
teu. O nosso, do Matias.
Ainda não sendo oficial a sua saída, mas não deixando de ser
provável, para Matias, as portas estão sempre abertas. Era melhor, muito
melhor, se ficasse connosco. Mas, se não ficar, temos de respeitar a sua
decisão, despedindo-nos com um agradecimento.
É que há quem, do lado de lá da segunda circular, tenha
levado a mal que o Rojo (encarnado em espanhol) se tenha tornado Verde. São
aqueles de Carnide, das jogadas dos túneis e dos balneários, onde, posso-o confirmar,
quando não são agressivos, são deselegantes. E não têm pejo em dizer que mandam
e que querem mandar, custe o que custar.
Matias, segundo o que se diz por baixo do campo, que é onde
normalmente joga o Benfica, recebeu um convite para receber muito mais dinheiro
do que recebe no Sporting. Tinha mais um ano de contrato, mas foi educado,
cordial e sportinguista quando o transmitiu a responsáveis do seu clube.
É legítimo que Matias queira ganhar mais dinheiro. É, aliás,
saudável, porque faz parte das ambições naturais de qualquer pessoa. Mas daí a
faltar ao respeito ao clube que o acolheu, e onde escreveu páginas bonitas da
sua história, vai um passo demasiado grande. Demasiado grande para que Matias o
pudesse dar.
E, segundo o que dizem os jornais, estando de saída, a um
ano de terminar o contrato, o Matias vai para outras paragens. Para a capital
mundial dos românticos. Para a capital mundial da arte. Vai para um clube com
mística, para um clube que é querido de todos nós.
O que eu desejo é que Matias seja feliz em Florença. E que faça
aqueles adeptos tão felizes quanto nos fez a nós.
Estamos gratos. Muito gratos.
E, se quiser voltar, as portas estarão sempre abertas para
El Crá.
Nota
Depois de reflectir sobre o tempo que deixei de ter disponível para me dedicar a este blogue, pensei colocar-lhe um ponto final. Pensei que tudo tem o seu tempo. E que, sem tempo, não iria valer a pena manter o blogue no activo. Pensei escrever o último texto, publicando-o amanhã, dia 27 de Julho, dia em que morreu o meu avô materno.
O texto estava praticamente concluído. Era uma homenagem ao meu avô, mas, jogando com os números, era também uma homenagem à minha avó paterna, que também faleceu num dia 27. De Maio. Dia em que nasci. Fazem, os dois, muita falta aqui, ao pé de mim e, sobretudo, dos meus pais. Mas tenho a certeza absoluta de que me acompanharam no texto que lhes escrevi e que sabem que a intenção de o publicar existiu.
O dia de amanhã é simbólico, mais ainda porque é o dia em que nasceu a minha prima Madalena. O 27 é um número especial, também, porque conjuga o meu número preferido com o número preferido da minha namorada. E Julho traz o 7, o meu 7.
Fui ver o número de visitas que aqui recebo, de gente que, gentilmente, tem a simpatia de me vir aqui ler. Lembrei-me de uma série de ideias, de um conjunto de opiniões, de imagens de paisagens por onde tenho passado. Senti a obrigação de continuar a partilhá-las, ainda que com menor regularidade do que aconteceu nos últimos seis anos.
É isso que vou continuar a fazer. Com paixão em cada palavra, com energia em cada frase, bebendo e dando a beber a liberdade. Com Voz Própria, como sempre.
Por hoje é tudo. E eu, eu...
...Tenho dito.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
Celebrar Lisboa!
A seguir ao Jamor, pelo simbolismo da final da Taça e por promover a festa das famílias, o estádio português de que gosto mais é o do Restelo. Com uma vista inigualável sobre o Tejo, e com a barriga cheia de pastéis de Belém, ver futebol ali tem outro encanto.
Temi, durante bastante tempo, que não iria voltar a ver futebol ser jogado naquele estádio. Estava enganado.
Hoje, num torneio triangular de jogos de 45 minutos, vou ver os três clubes de Lisboa de que gosto mais. Sporting, Belenenses e Atlético. Com três identidades diferentes, estes três clubes têm prestado um contributo decisivo ao desporto. São os três clubes que mais dizem à cidade, pela sua humildade, pelo seu sentido de esforço, militância e dedicação.
Quem é adepto ou simpatizante de qualquer um destes três clubes não pode faltar. O lugar é perfeito. E o que vamos fazer é festejar o desporto, e é celebrar Lisboa.
sexta-feira, 13 de julho de 2012
Muito bom!
O Sporting confirma, este ano, que, a mudança na estrutura de futebol trouxe um novo paradigma no que respeita à política de contratações. Sendo evidente que o Sporting está aberto a propostas para todos os seus jogadores, desde Patrício a Wolfswinkel, todos verificamos que lacunas que foram identificadas na época transacta estão a ser cirurgicamente preenchidas.
A contratação de Labyad foi, sem dúvida, a mais sonante. Trata-se de um prodígio que vagueava pela Europa à espera da sua confirmação. Pode jogar em várias posições no meio-campo e é, sobretudo, no jogo ofensivo que irá trazer mais qualidade.
Fernandes, internacional A pela Suiça, com experiência no futebol europeu, vem acautelar o treinador para um eventual atraso na recuperação de Fito Rinaudo.
Cedric terá a sua oportunidade, bem como Wilson Eduardo. São dois bons jogadores, portugueses e jovens, cujo caminho até à selecção nacional não está vedado. Quanto a Adrien, confesso que tenho as minhas dúvidas. É um bom jogador, uma opção interessante que preenche a saída de Aguiar. Mas estou hesitante por força da sua cabeça, que pode estar noutras paragens. Vou esperar para ver.
Hoje foi apresentado Pranjic, internacional croata, experiente, vindo de Munique, onde não conseguiu ter os mesmos minutos que jogou na época anterior. Acrescenta experiência e a sua polivalência no lado esquerdo é importante. Ataca e defende. E é isso que queremos no plantel do Sporting.
Falta, pelo menos, um central para o lugar de Polga e Rodriguez. E um avançado que dê luta ao Ricky. Se dependesse de mim, o investimento maior seria feito no central, porque Ricky dá garantias de golos e Wilson Eduardo promete mobilidade e eficácia. E, se fosse eu a decidir, ia ao mercado buscar um lateral direito.
Interessante tem sido, também, a composição da equipa B, que conta com um indiano e um chinês. É uma operação de marketing, uma tentativa de chegar a outros mercados. Mas, além desses, há, na B, uma série de jogadores que podem dar que falar, chegando, já nesta época, a poder ser alternativas à equipa principal. Falo, por exemplo, de Ilori e Nuno Reis, de Pedro Mendes (que veio de uma experiência no Real Madrid) e Dier (que esteve emprestado ao Everton). De Stojanovic (capitão dos juniores do Partizan), Patinho (já vestiu a camisola da canarinha nas camadas jovens), João Mário (pretendido pelo Liverpool), Betinho (futuro 9 da selecção nacional), Etock (formado no Barcelona) ou Bruma (guineense promissor).
Tem tido razão quem, há ano e meio, me dizia que iria votar numa determinada lista por causa de Duque e de Freitas. Têm tido da razão. É que eles não brincam.
quinta-feira, 12 de julho de 2012
E sem Relvas?
Não me vão ver, aqui, a escrever sobre a licenciatura de Miguel Relvas. Aliás, o que penso não se distingue do que está escrito, e bem escrito, no texto que Pedro Santana Lopes escreveu no seu blogue pessoal, onde expõe ideias que partilho num texto que subscrevo na íntegra.
O que me preocupa não é Miguel Relvas. É, em vez disso, o tempo que o país perde a discutir o sexo dos anjos, quando deveria concentrar-se naquilo que é essencial para a governação do país. Preocupa-me, também, a finalidade que têm aqueles que, por mera conveniência, colocam notícias no ar, que são apenas fait-divers, divulgando-as com objectivos que não são nada mais, nem nada menos, que políticos.
Sendo certo que Relvas é um homem forte deste governo, não escondo que me preocupa esta irresponsabilidade de uma série de pessoas que o quer ver fora do governo. Pensam, e talvez não pensem mal, que o governo, sem Relvas, teria uma duração de vida muito reduzida.
O que aconteceria numa situação dessas? Numa altura em que há portugueses a passar fome, a devolver casas e automóveis aos bancos, e sem emprego, como seria se, eventualmente, o país perdesse o governo ou, pelo menos, tivesse um governo muito mais fragilizado?
Sei bem que há quem pense que pagar a dívida é uma ideia de criança. É gente que não se distingue de Relvas pela licenciatura que tirou, mas que tem, em relação ao senhor ministro, uma diferença que é, essa sim, preocupante e que se encontra na falta de provas dadas durante uma vida inteira.
O passado, que já foi, é completamente irrelevante. O que interessa, e nos deve alertar, é o presente e o futuro. Que deve ser encarado com acrescido sentido de responsabilidade.
Sem Relvas e sem este governo, iriamos voltar aos tempos que nos trouxeram até aqui, onde dois Primeiros-Ministros, pelo seu pé, se afastaram ao assumir que, estando a deixar o país no pântano, não eram mais capazes de combater uma situação que eles próprios criaram.
Sem Relvas e sem este governo, o país tornar-se-ia num navio sem rumo perdido alugres no meio de um mar turbulento. Porque a alternativa ao PSD, e ao CDS, não é nada. Nada. É vazia, frouxa, incoerente, inconsistente. E, em período de marés vivas, já sabemos que são os primeiros a saltar para fora. Salvam-se a eles, mas deixam o resto da tripulação entregue à sua sorte.
Felizmente, parece-me que o país já aprendeu a lição. E, pelas dificuldades por que passamos, já levámos uma injecção de tal maneira grande, que já sabemos, pelo menos, a direcção que não devemos seguir.
Não percamos mais tempo a discutir teorias da conspiração, a comentar novelas que, sendo verdadeiras ou não, não nos deixam avançar.
Este é um tempo de trabalho e sacrifício, em que temos de ter coragem e ousadia, determinação e espírito de missão, estando solidários com aqueles que, quando o navio naufragava, aceitaram tomar o leme.
E tão grande foi o exemplo que nos deram. E tão grande é o exemplo que nos dão.
O país não pára nem pode parar, e nenhum de nós pode desviar a sua concentração, perdendo a sua atenção com assuntos que não nos levam a lado nenhum.
Portugal está a mudar. O tempo é de trabalho. E todos temos de fazer a nossa parte.
Esperemos que nós, os portugueses vivos, sejamos recordados pelos sacrifícios que fizemos e pelo sucesso que tivemos quando, depois da queda no abismo, fomos vindo, centímetro a centímetro, a sair do buraco onde nos deixaram.
Não há tempo a perder. Portugal não pode esperar. E estamos muito melhor com Relvas do que sem ele.
Imaginem só o que seria, se Relvas não estivesse neste governo, ou o que seria, se Portugal tivesse outro governo que não este, onde também está Relvas.
Mesmo sendo só imaginação, mesmo sendo só um cenário, essa é uma hipótese que nos deixa, aos portugueses lúcidos e com memória, assustados. Mesmo muito assustados.
E, nas últimas duas décads, já apanhámos sustos a mais...
segunda-feira, 9 de julho de 2012
"Carta de despedida aos amigos", Gabriel Garcia Marquez
“Se por um instante Deus se esquecesse que sou uma marioneta de trapo e
me oferecesse mais um pouco de vida, não diria tudo o que penso, mas
pensaria tudo o que digo.
Daria valor às coisas não pelo que valem, mas pelo que significam.
Dormiria pouco, sonharia mais.
Entendo que por cada minuto que fechamos os olhos, perdemos 60 segundos de luz.
Andaria quando os outros páram, acordaria quando os outros dormem.
Ouviria quando os outros falam e como desfrutaria de um bom gelado de chocolate…
Se Deus me oferecesse um pouco de vida, vestir-me-ia de forma simples, deixando a descoberto não apenas o meu corpo, mas também a minha alma.
Meu Deus, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre gelo e esperava que nascesse o sol.
Pintaria com um sonho de Van Gogh as estrelas de um poema de Benedetti, e uma canção de Serrat seria a serenata que oferecia à Lua.
Regaria as rosas com minhas lágrimas para sentir a dor dos seus espinhos e o beijo encarnado das suas pétalas…
Meu Deus, se eu tivesse um pouco mais de vida, não deixaria passar um só dia sem dizer às pessoas de quem gosto que gosto delas.
Convenceria cada mulher ou homem que é o meu favorito e viveria apaixonado pelo Amor.
Aos Homens, provar-lhes-ia como estão equivocados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saberem que envelhecem quando deixam de se apaixonar.
A uma criança dar-lhe-ia asas, mas teria de aprender a voar sozinha.
Aos velhos, ensinar-lhes-ia que a morte não chega com a velhice, mas sim com o esquecimento.
Tantas coisas aprendi com vocês Homens…
Aprendi que todo o mundo quer viver em cima de uma montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a encosta.
Aprendi que quando um recém-nascido aperta com sua pequena mão, pela 1ª vez, o dedo de seu pai, o tem agarrado para sempre.
Aprendi que um Homem só tem direito a olhar outro de cima para baixo quando vai ajudá-lo a levantar-se.
São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas não me hão-de servir realmente de muito, porque quando me guardarem dentro dessa maleta, infelizmente estarei a morrer…”
Daria valor às coisas não pelo que valem, mas pelo que significam.
Dormiria pouco, sonharia mais.
Entendo que por cada minuto que fechamos os olhos, perdemos 60 segundos de luz.
Andaria quando os outros páram, acordaria quando os outros dormem.
Ouviria quando os outros falam e como desfrutaria de um bom gelado de chocolate…
Se Deus me oferecesse um pouco de vida, vestir-me-ia de forma simples, deixando a descoberto não apenas o meu corpo, mas também a minha alma.
Meu Deus, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre gelo e esperava que nascesse o sol.
Pintaria com um sonho de Van Gogh as estrelas de um poema de Benedetti, e uma canção de Serrat seria a serenata que oferecia à Lua.
Regaria as rosas com minhas lágrimas para sentir a dor dos seus espinhos e o beijo encarnado das suas pétalas…
Meu Deus, se eu tivesse um pouco mais de vida, não deixaria passar um só dia sem dizer às pessoas de quem gosto que gosto delas.
Convenceria cada mulher ou homem que é o meu favorito e viveria apaixonado pelo Amor.
Aos Homens, provar-lhes-ia como estão equivocados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saberem que envelhecem quando deixam de se apaixonar.
A uma criança dar-lhe-ia asas, mas teria de aprender a voar sozinha.
Aos velhos, ensinar-lhes-ia que a morte não chega com a velhice, mas sim com o esquecimento.
Tantas coisas aprendi com vocês Homens…
Aprendi que todo o mundo quer viver em cima de uma montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a encosta.
Aprendi que quando um recém-nascido aperta com sua pequena mão, pela 1ª vez, o dedo de seu pai, o tem agarrado para sempre.
Aprendi que um Homem só tem direito a olhar outro de cima para baixo quando vai ajudá-lo a levantar-se.
São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas não me hão-de servir realmente de muito, porque quando me guardarem dentro dessa maleta, infelizmente estarei a morrer…”
Gabriel Garcia Marquez
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