sexta-feira, 30 de julho de 2010
Parado para pensar
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Começa hoje
Um dia depois de uma vitória expressiva de um Braga fortíssimo frente aos católicos da Escócia, o Sporting começa, na Dinamarca, a sua temporada oficial. O jogo será frente a uma equipa cujo nome não sei pronunciar, um pagamento de duas épocas abaixo daquilo que se exige a um clube como o Sporting.
Pelo que pude ver e perceber, este Sporting está mais forte, desde logo, porque tem treinador. Paulo Sérgio, porventura a roçar a imprudência, colocou o Sporting a jogar sem medo, a ir para cima dos adversários e jogar ao ataque.
Ao contrário do que acontecera na época anterior, o banco de suplentes não se resume a Pereirinha. Faltarão, talvez, alguns reforços para o centro do terreno (um suplente do Maniche), extremos e um avançado para que o Sporting possa ter um plantel tão competitivo como têm os de Benfica, do Porto e de Braga, caso contrário, este Sporting estará sempre dependente das lesões e dos castigos.
De todo o modo, o Sporting de Paulo Sérgio tem uma filosofia de jogo que rejeita o protagonismo individual em prol do rendimento colectivo, sendo certo que praticamente não há diferença entre um hipotético onze titular e um onze de suplentes.
Possivelmente, o Sporting estará perto de encaixar mais alguns milhões e de garantir um médio para o centro do terreno. Se tal facto vier a acontecer, creio que o Sporting ficará duplamente a ganhar.
Mas, fora do campo da política de contratações (inédita e positiva em Alvalade) e da filosofia de um jogo que se quer focado na baliza adversária, o que é certo é que, na entrada para esta nova época, voltou a haver esperança em Alvalade. Não vamos apenas jogar na expectativa e na dependência dos erros dos adversários.
O Sporting está forte ou, pelo menos, está mais forte. E é uma alegria, para os sportinguistas, ver o Sporting a jogar. Veremos, em Maio próximo, se isso é suficiente.
domingo, 25 de julho de 2010
Até parece!
quinta-feira, 22 de julho de 2010
terça-feira, 20 de julho de 2010
Ponto de vista

Quando Manuela Ferreira Leite repetiu vezes sem conta a necessidade de um apoio às pequenas e médias empresas não o fez sem uma razão.
Sabia, na altura, que Portugal se iria deparar com uma crise com precedentes distantes e que iria ser sentida, fundamentalmente, pelas pequenas e médias empresas.
Mais. As PME são as principais empregadoras do país. Se não tiverem liquidez, têm duas opções: a primeira é despedir trabalhadores, cortando nos custos; a segunda é fechar as portas.
Dez meses depois desse discurso de alerta social-democrata, o tempo já deu razão ao discurso da liderança (da altura) do PSD.
Sejamos também um pouco sensatos. Os grandes afectados pela crise foram os patrões, sejam eles grandes, pequenos ou médios empresários. Até agora, com a descida dos preços e com os mesmos salários (alguns, porventura, ainda foram melhorados), os trabalhadores por conta de outrém não se consciencializaram ainda do impacto da crise, a menos que se tenham deparado, directamente ou não, pelo fantasma do desemprego. Só a sentirão no próximo ano quando sentirem um aperto de cinto fiscal, do qual ainda não se aperceberam.
Perceber-se-ia, um ano depois, que o problema estivesse identificado e que já se estivesse a discutir um novo caminho, de estímulo a quem emprega. Porque, se não houver quem empregue, não há emprego. E, sem emprego, não há dinheiro. É tão simples quanto isso!
Agora que se fala de uma revisão constitucional e de um caminho alternativo, dever-se-ia falar de um travão à onda sindicalista que exige acima dos limites do que pode ser exigível, de um apoio aos empregadores (sejam eles grandes ou pequenos, sem preconceitos ideológicos contra quem enriquece por força do seu trabalho) e de um reconhecimento da posição cimeira e determinante do empregador, não só na relação laboral mas, sobretudo, no seu contributo para o bem-estar colectivo.
No que respeita à política fiscal, os partidos à direita do PS deveriam impedir um aumento da tributação das empresas, que agrava ainda mais a sua situação.
Sem nunca colocar em causa os direitos fundamentais(!) dos trabalhadores, a direita dos socialistas deveria exigir um caminho diferente. De apoio às empresas e aos empresários. E, ao mesmo tempo, estimular os portugueses a trabalharem mais e melhor. Os portugueses, sobretudo os que não trabalham por sua conta, devem perceber que só com o seu trabalho poderão criar mais riqueza e, com essa riqueza, alcançar condições de vida melhores do que aquelas que têm hoje.
O Portugal de hoje, socialista, cede demasiado aos sindicatos e não está, de todo, a combater a crise. Em vez disso, discute os poderes do Presidente, uma revisão constitucional que aumente, em um, o ano dos mandatos, entre outros "fait-divers".
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Moral
Em rodapé, li, há minutos, que o PS exige que o PSD reaja à situação política no concelho de Oeiras. Até concordo com a exigência porque Oeiras sempre foi social-democrata. E, por assim ser, o PSD deve estar na vanguarda da luta por maior dignidade e credibilidade na vida política oeirense.
O problema é que não é o PS que tem de exigir o que quer que seja em Oeiras. Aliás, porque ficou em segundo lugar nas eleições de Outubro, atrás de Isaltino. Mas conseguiu esses votos através da mesma estratégia usada nas legislativas: enganando o eleitorado.
O PS apresentou Perestrello, que saiu do barco de Lisboa zangado com António Costa, e apresentou um projecto para quatro anos. Disse que era "(Oeiras) a sério". Mas não era. Porque o candidato, logo que pôde, deixou Oeiras, desinteressou-se, se é que alguma vez esteve interessado, dos oeirenses, e foi para o Governo.
Sobre Oeiras, o PS é o último partido que pode fazer qualquer exigência. É o único partido político sem moral para falar.
O PSD reagirá no devido tempo e apresentar-se-á como solução. E, conhecendo o povo oeirense como conheço, sei que aqui o voto é visto como uma espécie de contrato bilateral e sinalagmático. O PS rasgou esse contrato e sofrerá a consequência disso quando os oeirenses forem chamados a decidir.
Portas sempre bonito, sempre inconsequente

Paulo Portas pediu hoje, na Assembleia da República, a demissão do Primeiro-Ministro.
Fez bem. É isso que os eleitores desejam. E esse será um passo fundamental para combater eficazmente a crise.
É pena que Paulo Portas não vá mais longe. É o país que merece que Paulo Portas, pelo menos desta vez, seja mais consequente. Falar sem fazer de nada vale. Fazer é sempre muito mais complicado. Assim sendo, o líder do CDS deve dar o passo seguinte e apresentar uma séria moção de censura ao Governo, apresentando, a esse tempo, uma alternativa construtiva. Se o CDS quer ser parte da solução, pois então que seja. Mas, para ser, tem de ir além das palavras. Até porque desconfio que, se Portas fizesse mais e falasse menos ou, pelo menos, se fosse consequente naquilo que diz, até poderia ser um candidato sério, e alternativo, a Primeiro-Ministro de Portugal.
Caso contrário, vai continuar a estar no segundo plano do jogo político, vestindo a pele de personagem secundária, e a representar apenas dez por cento daqueles que votam.
Talvez Paulo Portas esteja a precisar de um RED BULL, que traga asas e ambição ao CDS.
Estado social

O Estado Social, sobretudo em alturas de crise, dá a mão aos que dela precisam. Não impõe sacrifícios insuportáveis. Não agrava a péssima qualidade de vida dos pobres.
Não prejudica os jovens, menos ainda aqueles que são bons alunos. Pelo contrário. O Estado Social desenha sonhos, puxa pela mobilidade social.
O Estado Social, por ser social, não enriquece só uma minoria de poder. Não faz auto-estradas que não vão servir ninguém, a não ser quem as faz. E não acrescenta mais uma despesa aos cidadãos que, por necessidade, se têm de deslocar em algumas auto-estradas.
Num Estado Social não podem haver dúvidas sobre a irretroactividade dos impostos.
Um Estado Social é um Estado que integra todos, que não desertifica, que não despovoa. É um Estado que agrega o interior e o mundo rural, longe do quotidiano citadino.
José Sócrates recorre muitas vezes ao Estado Social. Para recusar uma necessária revisão constitucional ou, simplesmente, para fugir a perguntas às quais os portugueses governados exigem resposta. Recorre, suspeito eu, sem saber o que é, de facto, o Estado Social.
Mas, no dia em que Sócrates perceber o que isso significa, vai ficar surpreendido quando verificar que ninguém atentou tanto contra o Estado Social quanto ele.
A mensagem de Obama e Portugal

Há quem diga que a campanha de Barack Obama para a Presidência dos Estados Unidos marcou a diferença pela modernidade da estratégia de comunicação fortemente centrada nas redes sociais, em dois ou três slogans, e com o “passa a palavra”. Também foi. Mas, na minha opinião, modesta porque esta não é a minha área, a grande lição que essa campanha deu ao mundo prendeu-se com a simplicidade da mensagem.
É verdade que as redes sociais, a imagem, o marketing político, a própria figura do candidato e os slogans tiveram importância, mas só a tiveram porque a mensagem era simples e, assim, tornou-se acessível ao povo médio.
Mais do que simples, a mensagem soava bem. E, se soava bem, deu a entender à maioria dos norte-americanos e, creio eu, também à maioria do povo do mundo, que a mensagem era verdadeira.
Se atentarmos, agora com mais calma, a cada comício, a cada discurso, verificamos que o essencial do discurso de Obama não estava na crise económica, não estava em projectos ou obras, não estava em denegrir a imagem do adversário com episódios duvidosos. Estava na concretização de um sonho que não era de Obama. Era um sonho americano. De ver um homem que cresceu com dificuldades, com um trajecto de vida dramático e quase épico, que subiu a pulso pela força do seu estudo e do seu trabalho ser eleito Presidente. Esse homem era igual ao cidadão eleitor. Casado. Pai de duas filhas. Nos seus discursos não falava de problemas do Estado, mas de problemas das pessoas. E, porque Obama não mostrava ser mais do que o cidadão que iria votar, conhecia bem os problemas do quotidiano. Era isso que a mensagem transmitia.
Foi essa a chave da vitória. Apelou ao sonho do todo, mas falou dos problemas de cada um. Problemas comuns, do dia-a-dia. Da sobrecarga fiscal à saúde, da educação ao drama da guerra. Foi disso que Obama falou e o “yes we can” a isso se referia. A nada mais.
Quando o PS tentou importar para Portugal esta estratégia de comunicação esqueceu-se que Sócrates não é Obama. E, olhando para o quadro político actual, este modelo não será bem sucedido se vier a ser adoptado por qualquer partido. Porque não há ninguém que tenha uma mensagem igual. E, se assim é, podemos concluir que, por cá, estão tão afastados os governados dos governantes como o seu contrário. Por isso é difícil que possa surgir alguém que venha puxar pelo povo, dizendo-lhes “yes we can”, ou que possa sequer atrever-se em falar de algo como “hope”.
terça-feira, 13 de julho de 2010
A vitória da união de Espanha

A vitória da selecção espanhola no campeonato do Mundo foi, sem dúvida, importantíssima de um ponto de vista político.
Depois de duas épocas quase de sonho do Barcelona, da vontade de Laporta assumir funções políticas na Catalunha, tendo intenções de a tornar independente de Espanha, esta vitória no campeonato do mundo traz também um novo fôlego à unidade de um país, e de um reino, com muitos, muitos anos de História.
No País Basco, em Barcelona ou em Madrid, o sentimento terá sido o mesmo. Todos se sentiram campeões do mundo. E isso, politicamente, é um duro golpe para todos os separatistas.
Enquanto português, e vizinho dos novos campeões do mundo, fico feliz por esta vitória e por este novo orgulho em se ser espanhol.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Férias!
Custa acreditar que este foi o último dia de um longo período de exames e orais obrigatórias e que é, simultaneamente, o primeiro de vários dias do maior período de férias que tenho durante o ano.
Costumo dizer que as férias, que agora começam, são merecidas. Estas, como as outras, também serão. Serão férias de praia e de festa. Serão também férias de muito descanso e de alguma reflexão. Da reflexão escreverei brevemente, mas hoje festejo o fim dos exames, as notas dos exames, o fim do ano lectivo e o princípio das férias.
É, portanto, um dia de festa (também temos direito!). E resolvi festejá-lo também aqui no blogue com os leitores, com uma música de festa que me foi sugerida pelo Martim Pipa. Espero que gostem.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
A vida continua...
O Sporting sempre foi um clube assim, feito por sportinguistas.
Dos que não são sportinguistas não reza a inigualável História do Sporting.
E, por ser assim, os anos passam assim como as gerações, mas o Sporting continua. E continuará para sempre, como clube vencedor, com uma elevação que o continuará a distinguir de todos os outros.
Viva o Sporting.
sábado, 3 de julho de 2010
Hoje
O meu telemóvel vai tocando, vou mantendo conversas com a nação leonina, que hoje dormiu mal e acordou em estado de choque.
Assombrado pela memória, enojado com a falta de carácter, na dúvida sobre o conteúdo de um negócio que, segundo se diz, está a ser feito, aguardo com expectativa por mais desenvolvimentos.
Não sendo o fim do mundo, não havendo desmentidos nem confirmações, nem comunicados à CMVM, resta-nos esperar. Por conclusões. Moutinho significava mais para o Sporting do que Felipe Melo para a Fiorentina. Porque era capitão de equipa. E, se a sua saída do Sporting for um mau negócio do ponto de vista desportivo e financeiro, tudo pode vir a ser possível.
No que respeita a Moutinho, se for verdade aquilo que se diz, aliado ao seu passado mais recente, será recambiado para a irrelevância desportiva (tal como acontecera com Quaresma, Simão ou Carlos Martins) e tornar-se-á numa persona non grata para qualquer sócio ou adepto da maior potência desportiva nacional.
Apesar da excelência da formação leonina, nem todos conseguem chegar ao nível de um Nani ou de um Cristiano Ronaldo. É que estes dois escolheram o caminho mais difícil, jogaram nos melhores clubes do mundo, nas ligas mais competitivas. Moutinho pode vir a ser mais um que ficará pelo caminho. Talvez tenha sido demasiado pequenino. Talvez. Mas, se tiver sido, o problema é dele.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Mal acostumado!
Para aliviar dos exames e como analgésico para todos os males, cantemos, como canta a selecção nacional. Até porque cantar atenua o stress e, tendo em conta o terrível embate de terça-feira, temos de cantar em uníssono, todos juntos, os muitos portugueses que somos, nessa viagem que, esperamos nós, nos levará, pelo menos, aos quartos-de-final.
"Mal acostumado, você me deixoooou, mal acostumado"...
sexta-feira, 25 de junho de 2010
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Mérito português

Queria escrever sobre a participação francesa. Mas o que eu queria escrever já foi escrito. Pelo famoso "L'Equipe" que descreveu a participação francesa como "patética e ridícula", pelos vários analistas desportivos e pelo próprio Presidente francês que proibiu qualquer recompensa financeira por aquilo que considerou ser um autêntico "desastre".
Se nós formos a ver, existe uma diferença fundamental entre o que aconteceu com a selecção francesa e com a selecção portuguesa. Ao contrário do seleccionador francês, o português não aterrou na África do Sul com a certeza de que iria ser substituído e que já estava contratado o seu sucessor.
Existem também outras diferenças: na entrada para o segundo jogo, Portugal ainda não tinha perdido e somava quatro pontos, enquanto a França não tinha vencido e tinha o ponto do seu primeiro jogo.
É difícil comparar as coisas. Porque nem aquele caricato episódio português no México é tão absurdo como o francês na África do Sul.
Mas há semelhanças. Pelo menos duas.
Na chegada à África do Sul, nenhum dos seleccionadores referidos entusiasmava o povo. E durante o campeonato do mundo ambos ouviram críticas de, pelo menos, um dos seus jogadores.
É importante que realcemos que, relativamente a estas duas semelhanças, a Federação Portuguesa de Futebol e Queiroz souberam contornar os problemas, mantiveram (pelo menos aparentemente) a coesão do grupo e levaram Portugal a uma vitória histórica, por 7-0. Apesar de ter sido contra uma equipa frágil fisicamente, naquele momento Queiroz teve a sorte que Domenech nunca teve. Excepto quando aquele árbitro fez que não viu aquela descarada mão de Henry que fez com que a França chegasse onde, possivelmente, não deveria ter chegado.
Sei que é um risco escrever este texto antes de jogarmos com o Brasil. Porque tudo pode acontecer. E antes do jogo da Costa do Marfim com a Coreia do Norte. Tudo pode vir a ser possível.
Mas, do mesmo modo que registei as palavras de Deco, tenho de registar o mérito do seleccionador nacional em ter resolvido o problema. Porque, se não tivesse resolvido, poderia haver muito mais semelhanças com o "desastre" francês.
Sendo certo que França está fora, que Itália faz as malas e que, na próxima ronda, alemães ou ingleses poderão ir de férias, pode até ser que Portugal consiga fazer o menos provável e que, com a mesma sorte com que derrotou a Coreia do Norte, possa vir a ser campeão do mundo.
A sorte procura-se com trabalho. E, às vezes, encontra-se.
E, tão improvável que está este campeonato do mundo, pode ser que Queiroz venha de lá com o troféu.
Apelemos às ninfas. Oxalá que sim!...
O dia-a-dia

Na rua onde eu moro vivem milhares de pessoas. Estudantes, crianças, trabalhadores, reformados. Gente de quase todas as profissões. E com diferentes estatutos sociais.
Na rua onde eu moro trabalham algumas centenas de pessoas.
Mas, se hoje falo da minha rua, é porque a minha rua espelha bem a realidade do país.
O minimercado é constantemente assaltado. Como também já foi assaltado o cabeleireiro e a papelaria.
O senhor da loja de antiguidades, instalado numa fracção arrendada há já muito tempo, fechou a loja.
A papelaria já vai no seu terceiro dono em pouco mais de dois anos. Agora, além de papelaria, é um sapateiro.
A loja de informática, que existia desde que me lembro, fechou no princípio do ano.
A loja dos móveis, que mantinha sempre a luz de presença acesa durante a noite, continua aberta, mas fechou a luz. Entre um assalto e a factura da luz, a vendedora preferiu apagar a luz.
Nestes últimos tempos, o ginásio de artes marciais fechou. Onde este funcionava, está uma porta, sem nada lá dentro.
Entretanto, abriu outro, empolgado pelas obras de melhoramento do campo de futebol. Mas, porventura por falta de clientela e pela escassez de dinheiro para pagar aos vários postos de trabalho de criou, reduziu, há dias, o seu período de abertura.
Nesta rua vivem pessoas com diferentes estatutos sociais, com um poderio económico também diferente. Os móveis colocados nos lixos, tal como as roupas, são apanhados em poucos minutos. Vive-se uma autêntica caça ao lixo. Em que ganha aquele que for o primeiro a apanhar.
Antes deste período, muitas lojas passaram a ser…bancos. E todos saberemos bem porquê. Nesta rua existem quatro ou cinco bancos, mais aquele estabelecimento que, aproveitando-se da difícil situação das famílias, vai ficando com o seu ouro.
Falo desta rua porque esta rua faz parte do dia-a-dia de muita gente. E porque espelha uma realidade que já não se consegue esconder. Mesmo tratando-se do concelho mais rico do país, não deixam de ser visíveis os sinais crescentes da pobreza, que aquele senhor, por dormir diariamente, de há uns tempos para cá, num automóvel branco estacionado em segunda fila, confirma.
A gente desta rua, que sai manhã cedo para deixar os filhos na escola e para ir trabalhar, que abre as portas aos fregueses logo pela manhã, muitas vezes precisa do Estado.
Precisa do Estado, por exemplo, quando tem um incêndio ou precisa de uma ambulância. Precisa de ligar a chamar uns bombeiros que, mesmo sendo voluntários, não deixam de ter uma dívida até à ponta do cabelo. E que, estando instalados mesmo no fim da rua, por vezes não têm meios para atender a pedidos urgentes….em tempo útil.
Precisa do Estado, por exemplo, quando vê o seu filho ser assaltado (facto que acontece com alguma frequência, ali para o pé da escola) ou quando vê um cliente entrar no seu estabelecimento, pegar em produtos e sair sem pagar. Ou quando quer fazer uma queixa. A polícia aqui, apesar do seu esforço notório e organização, não tem meios suficientes para garantir direitos da quantidade de gente que aqui vive ou trabalha.
Precisa do Estado, por exemplo, quando tem problemas de saúde. E aí sejamos sérios. Deixemo-nos do politicamente correcto: quem tem problemas de saúde e tem dinheiro recorre, em primeiro lugar, ao sector privado. A desorganização e tempo de espera, aliado algumas vezes à ineficácia do serviço nacional de saúde não deixa margem para outra solução.
Precisa do Estado para resolver conflitos. Mas a Justiça não é célere, vai começando a revelar sinais de incompetência e não consegue acudir a quem chama por ela.
O dia-a-dia desta gente vai além desta rua. Passa por um conjunto de estradas degradadas que danificam os automóveis comprados pela força do seu trabalho. Passa também pelas burocracias que obrigam as pessoas a tirar senhas, ficar à espera, perder uma manhã ou um dia inteiro de trabalho, para cumprir um dever que têm para com o Estado.
Esta é a realidade. De muita, muita gente, cada vez mais.
E quem vive esta realidade, quem trabalha nela ou simplesmente passeia por ela, sente-se desolado quando, à hora do jantar, vê os políticos discutirem novas obras públicas, anunciarem novos sacrifícios e debaterem assuntos que não interessam “ao caracol”.
É assim nesta rua. Como também será em todas as ruas deste país. Felizmente vai havendo futebol para ver, cães para passear, sol para bronzear, Igrejas para rezar, matéria para estudar, livros para ler, filmes para ver, telenovelas para entreter. E, pelo sim, pelo não, já tudo serve para contornar a depressão.

